sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Convite



Vem comigo, deixa-me te mostrar um mundo que você não achava possível. Complicado, perfeito, mas ao mesmo tempo, livre, sem regras. Me dê a mão, deixe o medo de lado. O pior que pode acontecer é um tropeço no caminho, o retorno ao início, mas pelo menos não haverá a sombra do "e se...?"

Ou vamos esperar até que seja tarde demais?

Tarde demais



Um dia ela chegará tarde demais. E ela se sentará nos degraus da festa, descalça, imaginando o que poderia ter sido.

Livros



Me cerco de livros, mundos de fantasia, ilusão. Melhores, piores? Diferentes.
Me cansei da mesmice que me cerca, de ver as mesmas histórias se repetindo, de usar o mesmo perfume, as mesmas roupas, das paredes beges e lençóis brancos.

Ao terminar um capítulo, paro, pensativo, os dedos acariciando a borda da folha, e olho para a prateleira. Livros de ciência, de ficção, de história e matemática. Mas o que acontece fora deles? O que se passa do lado de fora da porta? Há algo além da janela? O que acontece ao redor de Bastian, enquanto ele acompanha Atreyu? Não sei. Meus olhos voltam para meus dedos, e, acariciando o papel amarelado, viro a página.

A musa



O poeta de costas, sentado à sua mesa, não se dá conta do que passa. Se fecha em seus papéis e canetas, alheio a tudo e a todos. Rejeita a musa, abandona as cores do mundo, e se prende a seus escritos. Retoma seu texto, tentativas desajeitadas e sem alma - lhe falta algo - a musa? Mas está convencido de que não precisa mais dela, e de que não precisa escrever. Atira a um canto as canetas, entorna tinta nos papéis, fecha o livro.

Mas basta que ela, antes alheia a tudo, lhe dirija um olhar, uma palavra, que lhe mostre que ela ainda existe, para sua certeza de independência se esvaia.

O poeta não supera a musa. Ele a recolhe, e guarda com cuidado junto às outras que o abandonaram. Elas moldaram quem ele se tornou.

Só.



Estar só. Vazio da presença de outros.

Se sentir só. Abstênio de companhia.

Ser só. No isolamento de si mesmo, saber-se só. simples assim.

Em meio à multidão é onde me sinto mais só. É onde sou confrontado com o fato de que existem pessoas ao meu redor, que vivem suas vidas normalmente, e como é evidente a minha inabilidade em me encaixar, em "fitting in". Ainda assim, eu tento. Um dia eu consigo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mares secos



O barco partiu há muito, e o tempo, incessante, passou. A velha âncora, separada de sua embarcação, já não tem mais um propósito, mas permanece, impávida, cumprindo seu papel. Não lhe importa que não haja mais brisa, peixes ou mar.

Não lhe estranha a ausência da tensão da nau puxando, querendo movê-la. Nem considera a possibilidade de ter sido deixada, um monumento ao passado. Ela segue como se barco nunca houvesse visto, como se no mar nunca houvesse mergulhado. Aguarda o olho do viajante, a visão inesperada no mar da planície.

Sua nova função é simples: Assegurar-se de relembrar o viajante de que o mar ainda existe, apenas se mudou, fugiu, esguio. Há outras águas, há outros mares, há mais no mundo que essas planuras de sal. Basta buscar, ou, quem sabe, aguardar que a próxima maré alta traga o retorno do mar que secou.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Largada



Os músculos retesados, a mente afiada, os ouvidos atentos. Cada nervo carregado, pronto para a largada. Nada do passado importa, só o agora, e o que vem pela frente. A estrada que me trouxe até aqui é meu caminho, isso não se muda, e nem quero. Devo ao meu passado o que me tornei. Bom ou ruim, este sou eu.

A estrada à frente é difusa, incerta, acho que preciso de novos óculos. Talvez lentes de contato, mudar, mudar mais, ajustar, até encontrar meu novo domínio.

Impaciente, ansioso, incauto até, não espero o tiro, e parto, vento no rosto, peito aberto, em direção ao futuro que me espera.