quarta-feira, 30 de abril de 2008

Sonhar


Certa vez sonhei que voava. Por acaso, ganhei consciência do estado de sonho e consegui controlar o que acontecia. Nunca aconteceu de novo.

Hoje eu sonhei que voava, e o despertador me trouxe de volta à realidade, e fica um resquício de frustração, por saber ser apenas um sonho.

Alguns dizem que deveríamos poder escolher o que sonhar.

Para mim, escolher o que não sonhar já seria um grande progresso. Evitaria a frustração do despertar.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Chove


Chuva pesada nessa cidade cinzenta, lavando as ruas, lavando as almas.
Dia escuro, a noite chega mais cedo... ou nem foi embora? O cinza da manhã é um resto da noite preguiçosa de ontem se recusando a partir? Ou seria um prólogo da noite de hoje, se antecipando ao tempo?

A chuva molha, a chuva lava, é o mundo chorando a morte dos que se foram, as perdas, frustrações, desilusões. É um desabafo, não o choro contido na sala do cinema, mas o pranto descontrolado debaixo do chuveiro.

Mas a chuva vai passar, e a gente segue em frente, os pés se encharcando nas poças, esperando um céu azul pra amanhã.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Só e a Rosa


É, nem sempre dá certo.

Não se colhe uma rosa só pelo desejo de acolhê-la. Não se cativa quem não se permite ser cativado.

E assim, é com certa tristeza que sigo em frente, cabisbaixo, novamente só. Desejo que a rosa fique bem, que encontre alguém que lhe regue e acolha como eu o faria. E que saiba que se precisar de mim, estarei aqui, e que se mudar de idéia, que não hesite em me chamar; talvez não seja tarde demais.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A Rosa


Ela estava ali, fazendo suas coisas de rosa. E eu ali, passando ao largo, quase não a noto. Tímida, retraída, mas ao mesmo tempo feroz, seus espinhos pontiagudos ameaçando quem se aproximasse. Parei, sem saber direito por que, e observei. E vi como a cada pétala que se abria, uma ainda mais fina e delicada se mostrava. Vi o suave rendado de suas folhas, os espinhos afiados, seu caule forte.

Como pôde uma rosa, vista de relance, me capturar a atenção deste modo? Como ela, sem fazer nada, me conquistou assim? Por que eu me deixei derrubar deste modo?

Não sei.

Só sei que ela me encanta, e a cada nova pétala aberta, mais quero ver e acompanhar. Quero abraçá-la, me ferir em seus espinhos, mas em meu abraço protegê-la do frio no jardim. Regar-lhe néctar, escutar-lhe queixas, enxugar-lhe o pranto. Quero estar ali para conhecê-la pelo cheiro, pelo farfalhar das folhas, e sim, também pelo arranhar do espinho. Porque vem tudo junto, não quero deformá-la podando as folhas rasgadas, cicatrizes de batalha que a trouxeram até aqui. Não quero tirar os espinhos que ela custou a polir e afiar, não quero mudá-la. Aceito-a como ela é, assim, marcada, sem tirar nem pôr, e é para mim perfeita, porque, mesmo que sem querer, foi essa rosa que me cativou.

Um ano



E faz um ano que mudei de vida. Um ano desde que acabou meu casamento. Sinto saudade das coisas boas, mágoa pelas ruins, tristeza pela perda, alívio pelo recomeço. Foram 7 anos, não dá pra fingir que não existiu, que não importou. E é importante se lembrar dessas coisas. Uma amiga certa vez me disse que ela anotava em um diário tudo o de ruim que lhe fizeram para que ela não esquecesse nunca, para não se permitir fazer aquilo a outros. Eu a entendo.

Não foi fácil, este ano. Muitas, muitas mudanças, muitas alterações de estado, de disposição... É estranho olhar pra trás e ver que faz um ano. Curioso como o tempo não é absoluto. Um ano é muito e pouco ao mesmo tempo. O passado de um ano é ao mesmo tempo remoto e recente.

Nesse ano aprendi muitas coisas, cresci, lutei, sobrevivi... e descobri que quem mais te machuca é quem você confia pra lhe guardar as costas. E justamente por isso é que me preocupo tanto em não machucar ninguém.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma noite


Aquela noite parecia ser apenas mais uma noite agradável na companhia de pessoas agradáveis, com doses equilibradas de música e risadas. Tudo perfeito.

E no final, ela se tornou mágica e inesquecível.

Fechado para balanço


Às vezes chegam momentos em que a gente tem que se fechar um pouquinho, pensar nas coisas que têm acontecido, pra entender melhor, para perceber como nos sentimos depois de removidos os impulsos de momento, as dúvidas sem resposta.

E às vezes, nem um período desses resolve. A confusão permanece, a insegurança, as incertezas. A vontade de acertar, o desejo de entender, de saber por que a rosa é diferente das outras rosas, de olhar mais de perto e ver que mesmo essa rosa tem lá as suas duas ou três lagartinhas.

Me criticam porque sou frio, me criticam porque sou apaixonado.. sou assim, contraditório. Desculpe, não posso evitar. Não sei como me portar, não encontrei ainda o manual de instruções dessa coisa chamada "vida". Às vezes a gente fica sem saber qual botão apertar, qual alavanca puxar, e na ânsia de acertar, acabamos fazendo de mais ou de menos. Não existe ponto certo, não existe ideal. O ideal é ilusório, o que podemos fazer é tentar o melhor possível dentro do que conhecemos, dentro do que nos aparece.

E depois desse "fechado para balanço", é questão de voltar à vida, levando em frente, buscando aquela gota de orvalho.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Cativa-me!

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:



- Por favor... cativa-me! disse ela.

Amigo meu


Tenho um amigo que inventou de fazer blog uma vez. Era pra ser uma coisa introspectiva, pensamentos particulares.. então não colocou nos engines de busca, e não contou pra ninguém, nem pra esposa.

Eventualmente, uns outros amigos descobriram, e o blog desse amigo meu durou um ano e pouquinho.
Meu blog é diferente. É introspectivo, mas é uma coisa peito aberto, quem quiser ler, que leia, este sou eu, alma desnudada, lavada, exposta. Não é segredo, mas é íntimo. Não escrevo com censura, não me limito pensando na platéia. Sou eu, assim, aqui. Só.

Desejo


O que eu desejo? Essa é uma pergunta difícil de ser respondida. Desejamos muitas coisas, muitos graus da mesma coisa. Mas o que seria o ideal, pra não se atropelar como a criança que come 10 barras de chocolate de uma vez?

Um passeio no parque, um entardecer no café, um show, um cinema, o largo da ordem na manhã de Domingo, o Botânico no pôr do sol de um dia qualquer.

O que desejo é um namoro de criança, o namoro de conhecer, de se permitir a aproximação gradual. O namoro onde até a mão dada é estranha, onde o beijo roubado é proibido, onde cada novo encontro é precedido de imensa expectativa. Quero a chance de me aproximar mais, devagarinho, de poder conhecer e ser conhecido, de cobrir essa lacuna enorme de tanto tempo passado sem que um soubesse da existência do outro. Sem promessas, sem neuras. Só a chance de nos conhecermos melhor. Simples assim.

Medo


O dia amanhece, chega o despertar para a vida que segue. Olho pro ontem, pro amanhã, não sei onde estou. Como seria de se esperar, imagino que talvez o "não" seja mais por medo que por ausência de vontade ou interesse.

Já deixei que o medo me dominasse muitas vezes. O medo de perder o que eu tinha, amizade que era muito preciosa para mim. O medo de me desiludir, de fazer com que ela caísse do pedestal onde eu a havia colocado. Medo de me machucar, o terror absoluto que sempre assombra a idéia de machucar quem eu gosto. Já me deixei dominar pelo medo de estragar o futuro daquela com quem eu queria passar o futuro, e saí assim, sem nenhum dos dois entenderem o porquê. Deixei que o medo do oceano do incerto me impedisse de sair do barco que navegava para onde eu não queria ir.

Com todo esse receio, toda essa cautela, acabei me trancando em uma redoma, me isolando do mundo e das pessoas que poderiam estar comigo. E fui só.

Por isso resolvi não mais me entregar ao medo. Prometi a mim mesmo que não ficaria acovardado em um canto, que me arriscaria, que aceitaria a chance de perder quando eu tivesse muito a ganhar. Pode não dar certo, pode ser tudo uma ilusão, mas não terá sido em vão. Valeu a viagem, a tentativa, valeu o fantasma que foi afastado um pouquinho mais. Eu sei dos riscos, eu sei que não é simples como nos contos de fada, mas aceito isso como parte indivisível do todo.

Tenho medo sim, também sangro quando me machuco.
Apenas resolvi enfrentá-lo.

Solidão


O mundo é um antigo filme preto-e-branco. Olho à minha volta, não encontro os óculos escuros para me proteger da luz ofuscante que me envolve. Cego, sigo tropeçando no cenário abandonado de uma peça há muito esquecida. O pianista do cinema, bêbado, cai sobre o piano em lá menor, enquanto na tela muda, eu me sento e espero, sem desejo de voltar para a estrada, onde um cão sem dono aguarda para lamber-me a mão.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A nova espera


Às vezes enxergamos as coisas como gostaríamos que elas fossem, nossos desejos nos iludindo, distorcendo nossa percepção. Cabe ao observador filtrar isso, ou reconhecer a possibilidade de distorção e levá-la em conta antes de se tomar aquilo como verdade.

Assim, agi como achei que deveria, mas a miragem era realmente apenas parcialmente real. Não me arrependo, faria de novo, acho que a chance de dar certo fez com que valesse a pena o risco.

Agora estou aqui, à porta, curioso, desejoso de ver mais, de entrar nesse admirável mundo novo. Talvez o portão se abra, talvez não... quem sabe? Não eu...

A gota de orvalho caiu da pétala de flor. Mas vejo uma pluma no chão, talvez soprando juntos, consigamos fazê-la voar bem leve em sua vida breve, enquanto houver vento sem parar. Enquanto isso, vou esperando.. observo, aguardo, paciente, a chance de espiar o mundo por trás do portão.

Será?


Será que ela está pensando em mim?
O que se passa na mente dela? Que dúvidas? Alguma certeza? Vontades? Quais?
Não tenho pressa, mas tenho minhas dúvidas também, perguntas, questionamentos... Me perco em meus pensamentos, e quando vejo, o tempo passou, e estou um tiquinho mais próximo de descobrir a resposta pra mais uma pergunta, abrir mais um pouquinho a cortina.
Penso? Questiono? Imagino? Claro!
É natural a gente ficar divagando sobre as coisas boas que acontecem com a gente.

Gota de orvalho


...e cai o pano.
Fui descoberto. Ou me revelei? Não sei. Mas é boa a sensação do pano caído, o spot no rosto, mesmo que a platéia seja tão pequena. A importância da platéia não é proporcional ao seu tamanho.

Encontrei uma pétala de flor com uma gota de orvalho. A luz da manhã oscilando, refratando mil cores, fractais de luz na lágrima formada.

Tenho sorte. Mais uma entrada na minha lista de coisas que me fazem bem.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Espera


Passo as noites à espreita, alerta, esperando um sinal. Será que ela vem hoje? Será que vou ter um gostinho de sua companhia? E à medida em que as horas passam, minha esperança vai se esvaindo, até que, cabisbaixo, sou forçado a me lembrar de que provavelmente não sou mais que um nome na lista de conhecidos, provavelmente com o rosto meio apagado entre memórias difusas.

Mas se ela vem - ah, se ela surge do nada, com o sorriso maroto no canto da boca, a noite se ilumina, a tensão se dissipa, tudo é leve e lindo novamente.

E vou dormir satisfeito, desejando que em algum momento do amanhã ela pense em mim só um pouquinho.

Gostar


Me apaixono muito facilmente.
Por pessoas, por coisas, por idéias. Quando gosto, gosto de verdade. Não sei gostar mais ou menos. Por mais que veja e reconheça os defeitos, isso não diminui o meu gostar, acho que faz parte do todo, não dá pra gostar pela metade.

Nesse período de auto-revisão pré-30, estou me revisitando, me analisando como faria ao ver um quadro pela primeira vez. Redescobrindo coisas que gosto, que não gosto, que me fazem bem e que me fazem mal.

Redescobri que gosto de sorvete, de música ao vivo, de praças vazias, de andar na cidade de manhã. Não gosto de estar com alguém de quem eu não goste de verdade, não gosto de não saber onde piso, de não ter perspectiva, de não saber pra onde vou.

Finalmente eu vi que com a companhia certa, até os lugares mais improváveis ganham sua magia, e que lugares fantásticos perdem a cor quando se está só.

E é por isso que quando encontro algo de que gosto, quero mais, e muito, e tanto. Quero aproveitar cada minuto, quero descobrir cada pedacinho, quero entender, apreciar, degustar cada detalhe.

Miopia


"Você é muito fechado", me dizem alguns. É porque ainda não chegaram perto o bastante. É difícil eu deixar que alguém entre no meu mundo, mas quando acontece, é como se sempre tivesse estado lá. De longe sou um sério, fechado, sisudo até. De perto, sou outro. É uma miopia do observado, não do observador.

Isso às vezes me atrapalha um pouco, afasta as pessoas. Sei que minha primeira impressão geralmente não é das melhores. Mas me dê uma chance, e te mostro que no peito dos mal-humorados também bate um coração...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Telefone


Um telefonema fictício...


"Pois não?"
"Oi... sou eu!"
"Oi!! Como vai?"
"Tudo bem, tudo bem.. Estou aqui, tomando café naquele lugar, lembrei de você. Quando está livre pra um repeteco, um replay dos melhores momentos?"
"Puxa, esta semana está difícil... ocupada o tempo todo, todos os dias"
"Mas quando vai poder? Vamos deixar marcado já.."
"Hum.... Que tal Quarta?"
"Quarta está ótimo!"
"Te vejo lá então!"
"beijinho!"
"beijo!"

Eu enfiaria as mãos no bolso e sairia caminhando, sorrindo como uma criança que ganhou um doce. Às vezes, o pouco é muito, se for o pouco certo.

domingo, 6 de abril de 2008

Violão


Cresci ouvindo violão.
Sonhei ouvindo violão.
Chorei, vivi, sofri, sorri.
Tudo ouvindo violão.

Já era hora de eu me aproximar mais desse amigo tão antigo.

Retrospectiva I - Aprendizado

Faltam exatamente 30 dias para meus 30 anos. E nesse terço de vida até que aprendi algumas coisas.

Aprendi que respeito tem que ser uma coisa mútua, você respeitar não traz automaticamente o respeito do outro.

Aprendi a construir, destruir e reconstruir.

Aprendi que a casa não é lar só pelo fato de a chamarmos de lar.

Aprendi pessoas, aprendi culturas, comidas e canções.

Aprendi a gostar.

Aprendi a dizer que não gosto.

Aprendi a dizer que não. Ponto.

Aprendi a escutar.

Aprendi que não aceito sem entender.

Aprendi a abrir os braços, expor o peito e deixar que atirem.

Aprendi que sem pensar eu me jogo na frente, feroz, protegendo quem é importante para mim.

Aprendi que quero mais.

Aprendi que quero pouco.

Aprendi que às vezes, o pouco é mais, se for o pouco certo.

Mas acima de tudo, aprendi que realmente é impossível ser feliz sozinho.

sábado, 5 de abril de 2008

Procura-se

Procura-se alguém.
Alguém que deite a cabeça em meu colo para dormir com cafuné, que me dê os pés para massagear, que me permita amá-la como se outra não houvesse.
Precisa-se urgentemente de alguém para partilhar a vida, pra viver a magia de se encantar continuamente com as coisas pequenas. Alguém para dividir a árdua tarefa de mudar constantemente, de não se permitir a mesmice, o marasmo.
Necessita-se de companhia, aquele alguém especial para compartilhar momentos mágicos e dividir o peso das tristezas.
Enfim, procura-se Ela, que deixa um rastro de luz quando passa.

E que nao demore, a vaga é imediata.

Distância

Amar é bom.
Se apaixonar é bom.
Mas é tão difícil a paixão distante, especialmente naquele momento inicial de 'conte-me mais sobre você', de quere conhecer mais, de querer ver, decorar os trejeitos, qual é a covinha que ressalta no sorriso, como fica a testa franzida quando contrariada...

É duro se conformar com a inação, com a observação passiva do tempo passando.
E não é só a ausência do 'sim' ou 'não', mas a impossibilidade de sequer exigi-los.

Paciência... paciência...

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O só do soneto


O que é ser só? Ou melhor, Só. Assim, em maiúsculas mesmo. Asseguro que você conhece muito mais Sós que imagina. Tantos Sós cercados de gente, de sorrisos, de companhia! Solidão não é mais uma condição de isolamento físico. Talvez tenha sido um dia, mas esse tempo já foi.

Sei que não quero ser só. Sinto falta de companhia, de cumplicidade. E isso só faz com que seja mais difícil, me exponho mais, me arrisco demais. Quando vejo, sou um cão de rua esperando um afago, um solitário à beira do penhasco. O Só de Vinicius, andando pela estrada com o cão a lhe lamber a mão, esperando o momento em que venha a ser totalmente a sós.