domingo, 7 de dezembro de 2008

A que chegou tarde demais



Um amor tão terno surgiu, fomentado no adormecer da amada em seu colo, que mesmo depois de anos e milhas de distância, ele ainda se lembra do toque dos cabelos castanhos entre seus dedos. No início ela o afastou, depois seguiram vidas diferentes, e quando ela pensou que lhes seria possível tentar retomar, era tarde demais. A lembrança permanece, mas com a doçura de anos passados, de um tempo que não volta mais.

Eco



Se eu grito pro canyon e você também, temos uma conversa?

Como saber se ouvi meu nome, ou se são apenas palavras, murmúrios que as folhas soltam no vento?

Como identificar o chamado, quando se escuta o ruído do mundo?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Tesouros



No início, ele se apaixonava por pessoas que já lhe eram próximas, que já eram seus tesouros. Com medo de estragar a amizade, tão preciosa, permanecia calado. Quando resolvia mudar, era tarde demais.

Um dia ele tentou não ficar calado, e agiu cedo demais. Pelo tempo de uma vida ele viveu a comodidade do "contente", abrindo mão de tentar ser muito feliz.

Hoje ele não se prende mais a ninguém. Não se permite. O medo do "contente" o persegue. Vive cercado do medo de se ver novamente conformado. Quando tentou descer as escadas para a rua, o gelo nos degraus quase o derrubou, mas ele retornou à soleira da porta e ali permanece, observando, esperando encontrar aquela que pode ser sua Amada, a Uma, a Certa.

Construção



Tijolo a tijolo, construo meu mundo, meu porto. Um muro que delimita o meu domínio, que marca a fronteira entre o 'aqui' e o 'lá'.

A porta é estreita, mas os amigos têm a chave. Sabem que para eles a porta sempre está aberta. E eu tomo um livro e aguardo a visita inesperada, com meu olhar ansioso recaindo sobre a maçaneta da porta.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Epitáfio



Queimei meu passado, e deixei que o vento carregasse minha angústia para longe. Sou livre, leve, e só.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A casa vazia



No fim da tarde, a porta se abre para uma casa vazia, sem sentido. Não é um lar; é uma casca, um refúgio da chuva, nada mais. Um lugar para descansar os ossos, comer, dormir, e esperar o dia seguinte.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Anônimo



Caminho pelas ruas, mais um pedestre sem rosto em meio à multidão. Apenas mais um nas estatísticas, mais um na fila do caixa, no ponto de ônibus, no hospital. Um figurante, cumprindo seu papel de criar volume, de olhar admirado para o protagonista quando a câmera me tem em foco, ou de ignorar o que se passa ao meu redor quando estou ao fundo.

De volta ao lar, sou um olhar inexpressivo por trás da vidraça molhada de chuva, observando o tempo que passa.

Anônimo, e só.