sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Epitáfio



Queimei meu passado, e deixei que o vento carregasse minha angústia para longe. Sou livre, leve, e só.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A casa vazia



No fim da tarde, a porta se abre para uma casa vazia, sem sentido. Não é um lar; é uma casca, um refúgio da chuva, nada mais. Um lugar para descansar os ossos, comer, dormir, e esperar o dia seguinte.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Anônimo



Caminho pelas ruas, mais um pedestre sem rosto em meio à multidão. Apenas mais um nas estatísticas, mais um na fila do caixa, no ponto de ônibus, no hospital. Um figurante, cumprindo seu papel de criar volume, de olhar admirado para o protagonista quando a câmera me tem em foco, ou de ignorar o que se passa ao meu redor quando estou ao fundo.

De volta ao lar, sou um olhar inexpressivo por trás da vidraça molhada de chuva, observando o tempo que passa.

Anônimo, e só.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Canteiro



Recolhi os poemas e cartas, minhas canetas e papéis, e os enterrei. Não quero mais. Quero a lembrança doce das palavras, melhoradas pela imprecisão da memória falha. Fico com a ilusão do sonho, do que poderia ter sido, tão melhor do que o que teria realmente acontecido!
Agora no jardim, entre os espinhos das roseiras, há um canteiro de amores-perfeitos, e não posso evitar um sorriso no canto da boca, com a lembrança do que os alimenta.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Passado



E de repente, sem nunca ter sido presente, ele se tornou passado.

domingo, 23 de novembro de 2008

O templo



E ao encontrá-la, ele se retirou para a montanha, e, cinzel na mão, cavou da pedra o seu templo. Esculpiu imagens e palavras na rocha crua, e acendeu velas e trouxe flores em sua honra.

Seu templo era algo íntimo, próprio, particular seu. Não colocou placas nas estradas nem avisos nas cidades. Os que dele sabiam eram aqueles que o flagravam em seu caminho para a montanha, cinzel e martelo nas mãos calejadas. E ela encontrou o templo, e ao passar por ali, não sentiu o calor das velas ou o perfume das flores, e passou. Se por desgosto ou intimidação, nunca soube.

Um dia ela retornou, e ao ver as flores secas e as velas apagadas, perguntou ao vento, num murmúrio, o que havia acontecido. E o vendo carregou sua pergunta para o templo, que se acendeu novamente, as chamas amarelas aquecendo as paredes frias de pedra.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Conforto



Vem, menina, não chore mais. Deixe-me cuidar de você. Deite no meu colo e enxugue as lágrimas na minha camisa, o cafuné é cortesia da casa. Segure a minha mão quando acordar do pesadelo, eu te protejo das agruras do mundo. Te deixo andar de bicicleta, dar voltas no bairro, tranquila de saber que se cair, vai me encontrar com a caixa de curativos na mão, te esperando.

Meu anjo, permita-me te amar, permita-se me amar. Me dê a mão ao por-do-sol, venha discutir as cores das paredes, planejar o final de semana, escolher o próximo filme.

Vamos ver, juntos, o que a nossa história escreve.